terça-feira, 25 de março de 2008

Café café

Gosto de acordar cedo e preparar o meu café. Nunca saio de casa sem antes tomar pelo menos uma xícara desta bebida sagrada. Dizem que é um forte energético. Não sei se é ou não, e nem me interessa saber. Não bebo café por este motivo. Bebo pelo sabor, pelo cheiro, por beber, e por último, ou não, talvez, por vício, ou por puro prazer. Quando não faço isso em casa, saio à procura de algum lugar em que me sirvam um.

Ouço comentarem de que o que se gasta numa xícara de café dá quase para comprar um pacote de um quilo. Nunca parei para fazer este cálculo. Café é uma das poucas coisas das quais não olho o preço quando vou ao mercado. O fato é, que detesto me levantar e ter de pensar em sair de casa sem antes tê-lo tomado. Se existe quem fume quando acorda (mesmo antes de sair da cama, o que é bastante nojento) e tome Coca-Cola de estômago vazio, como primeira refeição do dia, eu prefiro conservar este hábito. Terrível para alguns, prazeroso para outros. Os vícios são assim, não fossem não seriam vícios.

O ritual de preparação do café é uma das coisas que me atrai muito, e se repete todas as manhãs. Preparo a cafeteira, coloco três colheres e meia, mais uma pitadinha do pó. Não me perguntem o porquê da pitadinha, mas acho que mais por mania do que por qualquer outro motivo, já que o resultado final é praticamente o mesmo. Talvez pelo charme de fazer diferente dos outros, daqueles que não se atêm a este momento e bebem café como quem toma água.

Enquanto côa o café, tomo banho, faço a barba, me visto, e, passados alguns instantes, volto verificar como tudo está indo. Gosto dos efeitos que são gerados pela luz na transparência do vidro da velha cafeteira, e que se refletem no café. Gosto do cheiro, que invade o nariz e se distribui pela casa inteira, invadindo cômodos. Ah, não existe aroma mais delicioso! Dá para pensar numa porção de coisa neste momento. Num dia da infância, num dia triste, num dia distraído de chuva, daqueles que lavam a alma, num dia feliz, numa transa boa, numa música (gosto de ouvir blues quando tomo café), numa mulher cheirosa (não só de perfume, mas de cheiro de mulher mesmo), numa ponte, na travessia a pé de um rio. Café é para ser tomado enquanto olha-se a chuva lá fora molhando telhados, a grama, nossa janela e as janelas alheias, ou no calor de um sol de inverno, ou na varanda no verão.

A água ferve, sobe pelo caninho da cafeteira, cai no pó do coador, que, molhado, vai parar no recipiente de vidro refratário, e, "voilá!", está pronto para ser bebido. Antes, quando morava com meus pais e irmãos, o café era passado no coador de pano. Como a família era enorme, fazíamos três bules de café, só pela manhã. Falam por aí que coador de pano é menos higiênico por acumular bactérias com o uso. Pode até ser, mas sempre que posso, saboreio bem um café feito no coador de pano, preso naquele tripé de ferro, sempre um pouco mais elevado que o bule. Gosto daquele gosto um pouco mais amargo. O cheiro parece mais forte.

Aprendi a tomar café com a minha avó, mãe do meu pai. Não falhava um dia sem correr até a casa dela, que ficava nos fundos da nossa, só para compartilhar com ela aquele momento. Lembro das canecas esmaltadas, verde, preta ou branca, que conservavam o
café bem quente. Pouca coisa me deixa deprimido, mas a falta do café é a pior delas.

Meu café e minha insônia são coisas das quais dificilmente vou (ou vão) me separar.
texto: Sebas


"bien venidos"